ÁLBUM DE FOTOS.

Eu estou sentada na beira da cama

com um álbum de fotos no colo,

acabrunhada, com uma dor profunda no peito

vendo as fotos antigas de uma menina, jovem, mulher

lágrimas teimam em rolar pelo meu rosto, não me reconheço nelas.

Mas, lá no âmago de mim, uma voz diz que sou eu,

neste tempo todo estive a querer mudar tudo em mim

não queria ser mulher, elas sofriam demais

homens tinham vantagens,

minhas mãos estão trêmulas a cada foto que pego,

meus olhos se enchem de lágrimas,

meu corpo se encurva.

Sinto certa complacência por aquela menina tão deixada de lado

um vazio se instala em meu ser, o que fizera?

Hoje com 58 anos estou revendo toda a minha historia

olho nos olhos daquela menina-moça

volto a dor sentida e nunca observada

corre em minhas veias um calor

e ao mesmo tempo me sinto gélida

duas pessoas se encontram

a abandonada e eu

uma olha para a outra com receio e mágoa

ambas se fundem, pois é uma só,

olho para os lados procurando um espelho,

e demoradamente me olho, como nunca tinha feito.

A sensação de estar fora de meu corpo por longos anos,

a dor da não aceitação de ser uma mulher,

é quando algo em mim se abre, uma fonte de tristezas represadas,

um choro convulsivo lava minhas faces, agora avermelhadas do instante.

foram tantos anos de rejeição e agora estou em contato e aprendizado com esta mulher,

eu aí me vejo situada no feminino

limpo minhas lágrimas e volto as fotos,

e posso ver cada detalhe, cada instante vivido

e a beleza daquela menina, jovem e mulher.

E o feminino com suas belezas e seu poder está agora de forma profunda.

E assim a realidade vai sendo tocada, as mãos se tornando firmes,

as lagrimas enxugadas,

e um novo olhar está se construindo.